No coração do oeste goiano, uma estrutura de proporções monumentais tem capturado a atenção de pesquisadores e instigado a imaginação popular por anos. Em Paraúna, município conhecido por suas paisagens únicas, estende-se uma 'muralha' de pedra com aproximadamente 15 quilômetros de extensão. O que a torna ainda mais intrigante não é apenas seu tamanho ou sua localização incomum em meio ao Cerrado, mas a composição atribuída a ela: pedras vulcânicas escuras, supostamente unidas por um misterioso 'óleo de baleia'. A complexidade dessa formação levou a uma série de especulações, desde intervenções humanas ancestrais até fenômenos naturais extraordinários, provocando um debate fascinante sobre a história geológica e cultural da região.
Entre Lendas e Primeiras Hipóteses: A Origem Desconhecida da 'Muralha'
A Prefeitura de Paraúna reconhece que a origem exata da 'muralha' permanece envolta em mistério para a maioria. Inicialmente, as teorias se dividiam entre narrativas de povos antigos e explicações geológicas mais amplas. Uma corrente de pesquisadores, impulsionada pelo fascínio com a antiguidade e a grandiosidade da estrutura, chegou a cogitar uma possível divisão erguida por civilizações pré-colombianas, como os Incas ou Maias, um conceito que, embora deslumbrante, rapidamente se mostrou inconsistente com a geografia e o contexto histórico do Brasil central. Outra linha de pensamento, mais alinhada a uma perspectiva geológica inicial, especulava sobre a possibilidade de a região ter tido uma origem oceânica remota, buscando explicar a presença de componentes incomuns na formação. Essas primeiras tentativas de desvendar o enigma apenas sublinhavam a necessidade de uma investigação científica mais aprofundada.
A Descoberta Científica: Uma História Geológica Milionária
Para desmistificar a formação, a ciência foi acionada. O geólogo Silas Gonçalves apresentou uma perspectiva que redefine completamente a compreensão da 'muralha', revelando que sua idade transcende qualquer civilização conhecida, remontando a um período entre 135 e 130 milhões de anos. Ele explica que a estrutura é um testemunho de um dos maiores eventos vulcânicos continentais já registrados, diretamente associado à fragmentação do supercontinente Gondwana e à subsequente abertura do Oceano Atlântico Sul. Este evento colossal deu origem à Província Magmática Paraná, responsável pela emissão de vastos volumes de lava basáltica que se espalharam por extensas áreas do sul e centro do Brasil, moldando a paisagem de forma indelével.
Após o resfriamento dessa lava, o material se transformou em basalto negro, uma rocha vulcânica densa e resistente. Durante esse processo de resfriamento, o basalto sofreu contração e desenvolveu fraturas características, conhecidas como juntas de resfriamento. Essas fraturas, muitas vezes poliédricas e com alinhamentos regulares, são cruciais para entender a aparência de 'muralha'. Ao longo de milhões de anos, a ação da natureza – em particular a erosão diferencial – atuou sobre essas formações. Enquanto rochas sedimentares e materiais menos resistentes ao redor foram gradualmente desgastados, os blocos de basalto mais resistentes permaneceram, expondo os alinhamentos geológicos e criando o relevo linear que hoje se assemelha a uma construção artificial. Esses processos, comuns em áreas vulcânicas, demonstram a capacidade da Terra de esculpir paisagens que desafiam a percepção humana.
O 'Óleo de Baleia' e a Descoberta dos Diques de Diabásio
Outro componente do mistério, o suposto 'óleo de baleia' que uniria as pedras, também encontrou uma explicação científica. A menção dessa substância exótica, que alimentava ainda mais o imaginário popular, teria se originado em um livro sobre a região. No entanto, o coordenador da unidade de conservação local, Danilo Lessa, esclarece que a substância é, na verdade, um dique de diabásio. Um dique de diabásio é uma formação geológica onde magma – rocha derretida – escorreu por rachaduras preexistentes nas rochas basálticas e se resfriou no interior dessas fendas. Esse material solidificado, de cor escura e textura fina, pode ter sido interpretado, em tempos passados e com menos recursos de análise, como algum tipo de cimento orgânico ou betume, originando a lenda do 'óleo de baleia'. A descoberta reforça a ideia de que a 'muralha' é um produto da geologia intrusiva e vulcânica da Terra.
Paraúna: Um Santuário de Riquezas Naturais e Históricas
A 'muralha' é apenas um dos muitos tesouros do Parque Estadual de Paraúna (Pepa), uma área de conservação que abrange a Serra das Galés e a Serra da Portaria. A região é um verdadeiro museu a céu aberto, onde a natureza caprichou na criação de formas impressionantes. Além da estrutura basáltica, o parque ostenta rochas que, pela ação do vento e da água ao longo de milênios, foram esculpidas em figuras que lembram tartarugas, cálices, chapéus e outras silhuetas, estimulando a imaginação dos visitantes e aprofundando o senso de admiração pela geodiversidade local.
A importância paleontológica de Paraúna também merece destaque. Foi na Serra da Portaria que, em 2021, pesquisadores confirmaram a presença de dinossauros na região. A descoberta de um dente de um dinossauro terópode, espécie bípede carnívora ou onívora, abriu uma janela para o passado pré-histórico de Goiás, revelando que criaturas gigantes habitaram essas terras milhões de anos antes da formação da 'muralha' basáltica. Esse achado conecta a paisagem atual a uma era distante, enriquecendo a narrativa sobre a evolução da vida no continente.
Completando o cenário de beleza natural, o parque é agraciado por diversas cachoeiras, com destaque para a Cachoeira do Desengano, frequentemente citada pelos visitantes como uma das mais bonitas. A facilidade de acesso a muitos desses atrativos, que não exigem o acompanhamento de guias, torna o Pepa um destino convidativo para amantes da natureza e aventureiros. O parque é uma prova viva de como a geologia, a biologia e a história se entrelaçam para criar ecossistemas únicos e fascinantes.
A 'muralha' de Paraúna, portanto, transcende a simples curiosidade local. Ela representa um testemunho eloquente dos poderosos processos geológicos que moldaram o Brasil ao longo de milhões de anos. A transição de uma lenda popular para uma explicação científica robusta não diminui o fascínio, mas o aprofunda, revelando a grandiosidade da natureza e a capacidade humana de desvendar seus segredos. Para os amantes da ciência, do turismo ecológico e da rica história do nosso planeta, Paraúna e seu parque oferecem um prato cheio de descobertas e reflexões. Continue acompanhando o Diário Tribuna Verde para explorar mais histórias que conectam a ciência à realidade do nosso dia a dia, trazendo informação relevante e contextualizada sobre os mais variados temas que impactam Goiás e o Brasil.
Fonte: https://g1.globo.com