O brilho ofuscante dos megaeventos esportivos, como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, prometia um legado de desenvolvimento e visibilidade internacional para o Brasil. Contudo, para milhares de moradores das favelas do Rio de Janeiro, o período entre 2014 e 2018 foi marcado por uma realidade bem distinta: a militarização crescente e uma onda de violações de direitos humanos sob o pretexto da segurança pública. É essa face oculta, muitas vezes ignorada pela grande mídia, que o documentário “Cheiro de Diesel”, recém-lançado, se propõe a desvendar.
Dirigido pelas jornalistas Natasha Neri e Gizele Martins, esta última moradora do Complexo da Maré, o filme mergulha na experiência de comunidades cariocas que viveram sob a égide das Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Mais do que uma retrospectiva histórica, o documentário contextualiza como essas intervenções militares, embora previstas na Constituição como último recurso, tornaram-se uma ferramenta recorrente no cenário brasileiro. Desde a Eco 1992, já foram mais de 150 GLOs no país, muitas delas concentradas em territórios urbanos vulneráveis do Rio de Janeiro, expondo uma fragilidade institucional e um uso questionável da força estatal.
As GLOs: um instrumento de exceção que se tornou rotina
As Operações de Garantia da Lei e da Ordem representam uma medida excepcional, acionada exclusivamente por decreto presidencial, que permite o uso das Forças Armadas – Exército, Marinha e Aeronáutica – para restaurar a ordem pública em situações de grave crise, quando as forças policiais convencionais são consideradas insuficientes. Na teoria, são um plano de contingência, um "último recurso" em cenários de colapso. Na prática carioca, especialmente no contexto dos megaeventos, sua aplicação se distanciou dessa prerrogativa, tornando-se uma tática de ocupação territorial com consequências devastadoras para a população civil.
Dois meses antes da Copa do Mundo de 2014, por exemplo, o governo federal autorizou a instauração de uma GLO na capital fluminense. Batizada de Operação São Francisco, a intervenção levou 2,5 mil homens das Forças Armadas para 15 favelas do Complexo da Maré, na Zona Norte. A escolha da Maré não foi aleatória: sua posição estratégica, cortada por vias expressas como as linhas Amarela e Vermelha, a Avenida Brasil e próxima ao Aeroporto Internacional do Galeão, a tornava um ponto "sensível" na ótica governamental para a imagem de segurança que se queria projetar para o mundo. Com duração oficial de 14 meses e um custo estimado em R$ 350 milhões aos cofres públicos, a ocupação gerou um volumoso dossiê de denúncias de torturas, coerções, assassinatos e invasão a residências, entre outras irregularidades.
Maré: o "laboratório" de uma política de exceção
Gizele Martins, uma das diretoras e moradora da Maré, relata a rápida desilusão dos residentes: “No primeiro momento, foi nos vendido a ideia de segurança. Mas no primeiro dia de invasão do Exército, os moradores já começaram a mudar de opinião, pois só naquele dia mais de 20 ou 30 crianças foram detidas porque estavam nas ruas da favela. Casas foram invadidas. Organizações sociais invadidas.” Esse cenário, segundo Martins, transformou a Maré em um "grande laboratório" para um modelo de atuação do Exército que se repetiria em outras favelas e em intervenções posteriores no Rio, como as GLOs de 2016 (durante as Olimpíadas) e a intervenção federal militar de 2018, que contou com o general Walter Braga Netto como interventor responsável pela segurança pública.
A narrativa das violações e a sombra da impunidade
O documentário não se limita a descrever as operações, mas dá voz às vítimas e detalha casos emblemáticos que expõem a brutalidade e a falta de responsabilização. Natasha Neri, co-diretora, enfatiza que as GLOs eram frequentemente decretadas por razões políticas e no contexto de grandes eventos, visando mais uma "suposta sensação de segurança" do que uma efetiva melhoria da vida da população, o que se revela uma farsa diante do uso de tanques e armas pesadas nas portas das casas de milhares de moradores de favelas. A imagem de blindados transitando por vielas e ruas estreitas contrasta com a realidade de um cotidiano já marcado pela violência estatal e pela ausência de políticas públicas eficazes.
Entre os relatos mais chocantes está o de Vitor Santiago, morador da Maré. Em fevereiro de 2015, Vitor foi alvejado por dois tiros de fuzil disparados por um cabo do Exército. Ele ficou em coma por 98 dias, teve uma das pernas amputada e ficou paraplégico. O cabo, em um desfecho alarmante e que ilustra um padrão, foi absolvido na Justiça Militar, um foro que, para muitos juristas e ativistas de direitos humanos, carece da independência e imparcialidade necessárias para julgar crimes de militares contra civis. A experiência de Vitor é um símbolo da fragilidade da vida em territórios militarizados.
Outros episódios sombrios, como a Chacina do Salgueiro em novembro de 2017, onde oito jovens foram assassinados por soldados do Exército, e a tortura de 11 jovens no Complexo da Penha em 2018, conhecido como o caso da "Sala Vermelha", também são trazidos à tona. Este último caso, de tortura dentro de um quartel do Exército, escancara a gravidade das acusações. A situação se agravou com a sanção da Lei nº 13.491, em 2017, pelo então presidente Michel Temer, que transferiu a investigação e o julgamento de crimes cometidos por militares contra civis para a Justiça Militar. O documentário de Neri e Martins busca justamente desmascarar a inconstitucionalidade e a injustiça desse dispositivo, que historicamente favorece a impunidade, minando a confiança da população nas instituições de justiça.
Um legado de questionamentos e a urgência do debate
A intervenção federal de 2018, que colocou o general Walter Braga Netto (posteriormente ministro da Defesa no governo Bolsonaro e condenado a 26 anos de prisão por integrar a trama golpista de janeiro de 2023) como interventor responsável por toda a segurança pública e administração penitenciária do Rio, é outro ponto crucial abordado. Ela ressalta a escalada da militarização e a sobreposição do poderio militar sobre as estruturas civis, deixando um legado de questionamentos sobre a eficácia, a legitimidade e o custo humano dessas operações no longo prazo. O "Cheiro de Diesel" não apenas documenta os eventos, mas provoca uma reflexão profunda sobre as cicatrizes deixadas nessas comunidades, a fragilidade da democracia em face de políticas de exceção e a necessidade imperiosa de proteger os direitos humanos, mesmo – e talvez principalmente – em tempos de "crise" ou de grandes espetáculos que buscam projetar uma imagem de normalidade.
O filme serve como um contundente lembrete de que a busca por uma "sensação de segurança" não pode justificar a violência estatal e a violação de direitos fundamentais. A narrativa humana e apurada do documentário é um convite à sociedade brasileira para confrontar as consequências reais da militarização da segurança pública e questionar os caminhos que o país tem trilhado. Para continuar acompanhando análises aprofundadas sobre temas cruciais como direitos humanos, segurança pública e o impacto das políticas governamentais na vida dos cidadãos, explore o Diário Tribuna Verde. Nosso compromisso é trazer informação relevante e contextualizada, alimentando o debate necessário para uma sociedade mais justa e consciente.